Revista Viva Conexão | Edição 14 - page 29

Arquivo pessoal
Para o médico Raimundo Lippi, compreender os limites
da profissão é essencial para a prática da medicina
A vontade do homem de postergar
a morte moldou a sociedade e a medi-
cina durante séculos. Só que os ho-
mens são, por natureza, vulneráveis e
mortais. Entender e aceitar essas con-
dições são os primeiros passos para
conseguir exercer a carreira de médico
sem angústias. Entretanto, não se trata
de um processo fácil quando há uma
inversão de papéis e quem trata passa a
precisar de tratamento.
Nesse contexto, sentimentos como
onipotência fazem com que muitos pro-
fissionais assumam a automedicação e
não procurem ajuda para expor suas an-
gústias. As consequências são variadas,
como alta incidência de dependência
química e depressão. De acordo com o
Conselho Federal de Medicina (CFM) e
o Conselho Regional de Medicina de
São Paulo (Cremesp), em 2009, a popu-
lação médica brasileira apresentava
taxas de suicídio superiores à da popu-
lação geral.
O psiquiatra, coordenador da Co-
missão de Atenção à Saúde Mental do
Médico da Associação Brasileira de Psi-
quiatria (ABP) e membro emérito da
Academia Mineira de Medicina, José
Raimundo da Silva Lippi, tem conduzido
seus estudos para auxiliar os colegas de
profissão a identificar os limites da car-
reira, as condições que os levam ao es-
tresse e a forma de reverter esse quadro.
Segundo ele, a tarefa médica é muito
peculiar e é exercida em um ambiente
profissional complexo, que propicia a vi-
vência de intensos estímulos emocionais,
como a evolução de um diagnóstico e a
assistência aos pacientes e familiares.
"Os médicos estão inseridos em in-
certezas e limitações do conhecimento
da área e do sistema assistencial
,
que se
contrapõem às expectativas dos pacien-
tes e à realização de procedimentos em
locais, muitas vezes, sem a estrutura
adequada. Além disso, desde cedo, são
estimulados a abrir mão de outros inte-
resses a favor da formação na medicina",
acrescenta José Raimundo Lippi.
Diagnóstico
Fatores como esses, quando soma-
dos, podem causar angústia, ansiedade
e uma sensação de impotência, que, se
não administrados ou tratados, levam a
problemas de saúde física, mental, rela-
cional ou social.
É aí que surge um paradoxo: apesar
de o médico cuidar do outro, muitas
vezes, ele se esquece de tratar de si
mesmo. "A possibilidade de 'vencer' a
morte traz ao profissional um falso sen-
timento de autossuficiência, acreditan-
do, portanto, que é capaz de tratar a si
mesmo. Usar um jaleco tem como efeito
principal a crença de que eles possuem
'poderes mágicos'
,
que repelem todo
mal. Por isso, acreditam que nunca fica-
rão doentes e que não podem demons-
trar fraquezas, depressão e tristeza",
observa o especialista.
Uma extensão patológica dessa ne-
gação é a
Síndrome da invulnerabili-
dade médica
, que se caracteriza pela
convicção de que os problemas pessoais
e familiares, as complicações e as doen-
ças que afetam a outras pessoas não
podem afetar o médico. Essa situação
pode interferir na qualidade do seu tra-
balho e comprometer até a sua ética
médica.
Em busca de sinais
Dependendo do quadro clínico, o
médico pode demonstrar sinais possí-
veis de serem identificados. Atrasos fre-
quentes ao trabalho, faltas não justifi-
cadas, redução no desempenho, mu-
dança repentina de atitudes, afasta-
mento social e tremores são alguns dos
indícios mais comuns.
"Omédico-paciente nega a sua con-
dição de enfermo. Ele esconde as suas
dificuldades emocionais, inclusive, de si
mesmo. Frequentemente, seus colegas e
familiares tambémmantêm uma conspi-
ração de silêncio, acreditando no mito de
que esses profissionais deveriam ser ca-
pazes de curar a si próprios", explica José
Raimundo Lippi.
Na visão da psiquiatra e autora do
livro
Médico como Paciente
, Alexandrina
Melo, além desses problemas visíveis, a
inovação tecnológica trouxe outros desa-
fios para a área médica. "A ciência revelou
muitos benefícios para amedicina, mas co-
locou o profissional como um ser disponí-
vel a todomomento. Com isso, os plantões
ficarammais frequentes", exemplifica.
A descoberta de alternativas para
doenças crônicas, comoAids e câncer, tam-
bém causou um arrastamento do sofri-
mento do paciente e da família. Essa
pressão ocasiona um sentimento de an-
gústia, pois, se o especialista conseguir sal-
var o paciente, será tido como um deus; se
ele falhar, não será perdoado. As pessoas,
no entanto, acreditam que, com o tempo,
ele se acostuma comessa tensão, mas isso
é impossível", pontua a psiquiatra.
Para prevenir o surgimento desse
quadro, os cuidados com o bem-estar e a
qualidade de vida são fundamentais para
a saúde física e mental. É necessário que
o médico se envolva com outras ativida-
des, como a convivência familiar, a prá-
tica de exercícios físicos ou a dedicação a
algum
hobby
.
"É importante ter cuidado com as
convicções, buscar a solução de proble-
mas pessoais no lugar e na hora certa,
não fugir da ajuda de um colega médico
em quem confia e, especialmente, elevar
o nível de tolerância às frustrações da
vida - que são inerentes ao ser humano
- por meio de um processo psicoterápico
eficiente", finaliza José Raimundo Lippi.
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